Um pequeno conto e um doce desencontro


Sempre estiveram muito perto um do outro, separados por alguns tijolos. Ele observava as pombas nos fios elétricos. Ela olhava o movimento da rua. Ele pendurava a toalha para secar. Ela gostava do vento balançando a cortina. Ele sabia que ela gostava de dança. Ela sabia que ele tocava piano. Ela ouvia e dançava. Ele tocava para que ela dançasse; a coreografia atravessava o assoalho e adentrava a sala pelo teto. Às vezes ela pegava a flauta doce e arriscava umas notas, acompanhando-o na melodia. Ela jantava às sete e meia e deixava ele lá, tocando música para sua solidão. Quando voltava, já estava silêncio, e ela se punha a escrever cartas, que acabava sempre guardando numa gaveta de chave já cheia de papéis cheios de palavras de outras cartas, enquanto ele lia alguma coisa, bem próximo ao parapeito para sentir o perfume de dama-da-noite vindo do andar debaixo. Quando ela ia fechar a veneziana, escutava o farfalhar do papel do instante em que ele mudava de página. Quando ele escutava o ruído desafinado da janela enferrujada dela, alinhava-se no travesseiro e dormia.
Ela foi morar na Espanha e ele entrou na faculdade de Direito.
Nunca se viram. Nem na padaria, nem no elevador, nem na esquina. Mas se conheceram. Se conheceram tão especialmente, que nunca se esqueceram.

Dois submersos

De tanto que eles queriam ser ouvidos, não se escutavam mais. Falavam e falavam e falavam. Derramavam todas as palavras pela boca, mas elas não iam a nenhum lugar e inundavam a sala. Morreram afogados em tudo que disseram.