27 de dezembro de 2017

Olhos mananciais

Foi lavar-se de seu pesar
Depurar o sangue

Sublimar dores e traumas.
E foi o meandro salobre que proferiu,
No encontro do oceano com o rio
O desencontro de almas

Mergulhou sem saber
Que era fonte de desejos, a mina de água
Conquanto a maré não lavou sua mágoa
Levou seu bem-querer

Chorou no mangue
Foi assim que salgou o mar

23 de dezembro de 2017

Véspera da véspera

Manhã alva de Sábado
Com cheiro de tempero na panela,
Som de sabiá da madrugada,
Gente lavando a calçada.

22 de dezembro de 2017

Haikai da certeza

Posso estar enganada,
Mas certas coisas
Deviam ser erradas

10 de dezembro de 2017

Flagrante


Ando, mas meu caminhar é silente
Parecendo indolente
Porém sendo 
Não sei bem o quê, nesse instante

Minha andança é apressada e urgente
Mas meu rumo, pendente
Enquanto vou
Volteio e contorno meus durantes

Um tempo
Sempre quando, desde então
Flagrante


23 de abril de 2017

Platônico

Impensável, improvável, impossível feito flor no cimento
Que nasce no nível duma calçada com movimento

Não era um amor-perfeito
Era qualquer uma flor do mato

Mas tão rara quanto


6 de abril de 2017

Voltei

Fiquei um tempo em silêncio
Inclusive
Mas sem poesia
Ninguém sobrevive

Voltei
Para onde sempre estive

2 de abril de 2017

Metamorfogo

Toque singelo me risca a tez e faz fagulha
O juízo me censura se meu âmago clama
Inflama meu íntimo, d'onde o sangue lateja
Dos pés às têmporas em fervura
Ardo

Combustão me repele, me impele e me debulha
Em delírio mergulha e aviva a flama
Descama minha pele, me rasga o couro
Revela minha verdade com brandura
Fardo

Nas formas do que é onírico, uma mão de ternura
Já não sei se a lonjura é aventura ou drama
Holograma do eu lírico em transformação
Guardo a chama em ruptura
Tardo

E já não sou brasa a queimar
Sou som, sou cinzas, sou ar

Sou água a suar
A escoar
A eva p o r   a    r   .      .              .






25 de julho de 2016

Horizonte definido

Que falta faz a fonte pura
A visão sem neblina
O pensamento sem bruma
A tardança sem esquina
O coração de pluma
Com urgência pequenina
De realização alguma,
Entregue a doce sina.
Mas esse tempo estendido
Que sequestra o sono
Já terminou de ser cumprido
Logo acaba o outono,
Logo volta o colorido
Dos prazos sem dono
Do horizonte definido

Onde resta a minha cura

22 de setembro de 2011

Horizonte indefinido

Da escolha fez-se o flagelo
Dos feitos vieram as dores
Do silêncio fez-se a mordaça
Nos ponteiros, desamores
A presença fez-se escassa
As palavras, sem pudores
Feitas todas de fumaça
Se ocultaram sob as cores
E o desejo desmedido
Desfez tudo em estilhaços
O abraço foi partido
Vencido pelo cansaço
O sorriso foi banido
Até o credo ficou gasto
E no horizonte indefinido


Não restou nenhum farelo

5 de setembro de 2011

Ali vi ar

Quando sinto essa secura
Vem seus versos me molhar
Como chuva de ternura
Até o peito inundar

Eis que os olhos viram mar
Da água mais pura
Para a alma navegar