Primeira premissa inexata

Eu e minhas palavras flutuantes
Não querendo dizer o que de fato digo
Deixando um sentido hesitante
Profundo por incerto e impreciso

Ah, meu formalismo evasivo...

A hora

Veio a tarde
Deitar na planície
Do meu sentir
Melancolia do fim do dia
Penumbra vazia
Escondeu o sorrir
Da convexa superfície
- sem alarde.


Olhos mananciais

Foi lavar-se de seu pesar
Depurar o sangue

Sublimar dores e traumas.
E foi o meandro salobre que proferiu,
No encontro do oceano com o rio
O desencontro de almas

Mergulhou sem saber
Que era fonte de desejos, a mina de água
Conquanto a maré não lavou sua mágoa
Levou seu bem-querer

Chorou no mangue
Foi assim que salgou o mar

Véspera da véspera

Manhã alva de Sábado
Com cheiro de tempero na panela,
Som de sabiá da madrugada,
Gente lavando a calçada.

Haikai da certeza

Posso estar enganada,
Mas certas coisas
Deviam ser erradas

Flagrante


Ando, mas meu caminhar é silente
Parecendo indolente
Porém sendo 
Não sei bem o quê, nesse instante

Minha andança é apressada e urgente
Mas meu rumo, pendente
Enquanto vou
Volteio e contorno meus durantes

Um tempo
Sempre quando, desde então
Flagrante


Platônico

Impensável, improvável, impossível feito flor no cimento
Que nasce no nível duma calçada com movimento

Não era um amor-perfeito
Era qualquer uma flor do mato

Mas tão rara quanto


Voltei

Fiquei um tempo em silêncio
Inclusive
Mas sem poesia
Ninguém sobrevive

Voltei
Para onde sempre estive

Metamorfogo

Toque singelo me risca a tez e faz fagulha
O juízo me censura se meu âmago clama
Inflama meu íntimo, d'onde o sangue lateja
Dos pés às têmporas em fervura
Ardo

Combustão me repele, me impele e me debulha
Em delírio mergulha e aviva a flama
Descama minha pele, me rasga o couro
Revela minha verdade com brandura
Fardo

Nas formas do que é onírico, uma mão de ternura
Já não sei se a lonjura é aventura ou drama
Holograma do eu lírico em transformação
Guardo a chama em ruptura
Tardo

E já não sou brasa a queimar
Sou som, sou cinzas, sou ar

Sou água a suar
A escoar
A eva p o r   a    r   .      .              .

Horizonte definido

Que falta faz a fonte pura
A visão sem neblina
O pensamento sem bruma
A tardança sem esquina
O coração de pluma
Com urgência pequenina
De realização alguma,
Entregue a doce sina.
Mas esse tempo estendido
Que sequestra o sono
Já terminou de ser cumprido
Logo acaba o outono,
Logo volta o colorido
Dos prazos sem dono
Do horizonte definido

Onde resta a minha cura