Um ovo oco

Não se parte, apenas
Sem pena e pesar
Levando um sorriso na casca

De uma ínfima fissura,
Frágil fratura, tudo escapa
Resta o vazio sob a lasca

Voz que por dentro ecoa
À toa; uma cigarra imóvel
Cortina de fumaça

De repente, não se vê
Como se,

- Já foi

Sem quebrar
Ainda
Intacta
Absurda
Carapaça

Às vezes tenho saudades de mim

Vez em quando me esqueço por aí
Sob uns papéis de Presente
Umas roupas amassadas
Umas palavras engasgadas

E às vezes me encontro
Numa janela de lembrança
Na minha própria marcha

Uns pedaços meus numa frincha
Nas entrelinhas de poemas antigos alheios
Nas pausas interpostas
Nos escombros empoeirados do tempo



Largarta

Duas horas para secar sob o sol
Dois anos até frutificar
O equinócio para florir
A lua pra maré baixar

O queijo matura no pano...

Curar também é esperar
Um dia
Um mês
Um ano



Esthesia

Que cor tem este sussurro?
É azul escuro o que escuto
Noite, petróleo e alcatrão

Que som faz este cansaço?
Sopro metálico e agudo
Suspiro, decrescente expiração

É a tua tez como a lua que vejo?
Áspera, seca de empecilhos
Cotovelo, língua e mão

Que sabor tem tua voz?
Gosto amargo, aroma mentolado
Um frescor com açafrão

De que tom é teu desejo?
Âmbar e quente como teu beijo
Sol menor, luz de poste, ebulição

Primeira premissa inexata

Eu e minhas palavras flutuantes
Não querendo dizer o que de fato digo
Deixando um sentido hesitante
Profundo por incerto e impreciso

Ah, meu formalismo evasivo...

A hora

Veio a tarde
Deitar na planície
Do meu sentir
Melancolia do fim do dia
Penumbra vazia
Escondeu o sorrir
Da convexa superfície
- sem alarde.


Olhos mananciais

Foi lavar-se de seu pesar
Depurar o sangue

Sublimar dores e traumas.
E foi o meandro salobre que proferiu,
No encontro do oceano com o rio
O desencontro de almas

Mergulhou sem saber
Que era fonte de desejos, a mina de água
Conquanto a maré não lavou sua mágoa
Levou seu bem-querer

Chorou no mangue
Foi assim que salgou o mar

Véspera da véspera

Manhã alva de Sábado
Com cheiro de tempero na panela,
Som de sabiá da madrugada,
Gente lavando a calçada.

Haikai da certeza

Posso estar enganada,
Mas certas coisas
Deviam ser erradas

Flagrante


Ando, mas meu caminhar é silente
Parecendo indolente
Porém sendo 
Não sei bem o quê, nesse instante

Minha andança é apressada e urgente
Mas meu rumo, pendente
Enquanto vou
Volteio e contorno meus durantes

Um tempo
Sempre quando, desde então
Flagrante