Eclipse total

A verdade está para o Sol como a mentira está para a Lua


Não encobre toda a luz, nem a verdade nua e crua
Faz-se ver na claridade, ilude bem na noite escura
E escapa à Lua Negra esse círculo que fulgura

História da Solitude

Como costumava fazer, não pensou, não ponderou, simplesmente entregou-se às suas vontades desenfreadas. Consentiu a perda do controle, mesmo que a satisfação de uma lacuna da sua vida custasse sua sentença. Seu desejo desesperado - abandonar-se para ocupar temporário pedaço de peito e de cama - só se faria honroso se afrontasse até o fim quem quer que fosse, quem quer que viesse. Arrastou-se bravamente até o tablado, de peito estufado, nariz empinado e coragem desancorada. O silêncio era ensurdecedor e seus passos atravessavam os tímpanos e tocavam os corações da multidão. A guilhotina não a decapitou. Na verdade, partiu seu corpo na vertical, em duas partes. Em duas metades, que desde então, perambulam na tentativa de se reencontrarem; nos quartos, nas salas, nas camas, assaltando o sono dos inseparáveis.