Indo

Olho onde estou
E percebo que não quero estar
Em lugar nenhum
Além de algum lugar
Bem no meio do caminho 
Para onde eu quero ir

Isto

Disto
Penso apenas rumores
Daqueles que sempre rimam
Com o segundo verso

Visto
Este meu silêncio cheio
Do que poderia ser
Um avesso do inverso

Deste nada
Que circunscreve o tempo
E que morre, na presença
No sorriso controverso

Não acredito
Porque vivo

Não compreendo
Por que sinto

E não consigo dar nome
Porque já existe

Tudo isto


Banquete

Tenho fome de palavras do outro
As ditas e as eruditas
As escritas vizinhas

Quero comê-las
E, com elas, manchar meus lábios
Lamber seu agridoce
Possuí-las na minha língua
Para forjar pensá-las
Até que se tornem linhas

Me nutrir de palavras tuas, delas
Para não ter de sentir
Tanto com as minhas

Sincerância

Da boca vêm as substâncias da nossa coerência:
Palavras e beijos em constante redundância
Nossa tão breve e íntima e tácita sincerância
Fazendo de nós corpos vivos em pura culminância

Querência

Das coisas poucas a não se fazer questionância
A menos justificável é essa querência toda
Que mora na transparência dos nossos olhos;
Desses olhos que se olham com veemência

Poema instagramável IV

Na moldura do instante
Sou um ângulo
Uma ilusão de mim
Uma ideia de corpo

Substrato
Físico e estético
(De uma infinitude de ideias)

Usuária
De uma identidade diária
Nem sempre inteira
Nem sempre real

Poema instagramável III

Na moldura do instante
Capto um momento
Que meus olhos perderam

Guardo na nuvem
A foto do céu de ontem
Junto com tantas outras
Que não irei mais ver

É a paisagem mais bela
Que já vi na vida!
(Através de uma tela)

Poema instagramável II

Na moldura do instante
Enquadro como arte
O prato que chega à mesa

Parte
Alimenta o ego
Que logo pede sobremesa

E, enquanto esfria
A comida,
Vazia
Fica a vida

Poema instagramável I

Na moldura do instante
Perdurar
Numa parede
Tentando ser relevante

Expor cara & coração
Dor & cor

Nesse espaço vazio
Ser pura decor

Calado

Nada me chama tanto a atenção
Quanto a sua boca

Sua boca me chamando
Sua boca sorrindo
Sorrindo seus dentes proporcionais
Acomodando a sua plácida língua
Sua boca filosofando
Sobre alguma míngua da existência
Dizendo algo irônico
Criticando uns hábitos pós modernos
Sua boca quando beija a taça
Dando um gole de vinho
Sua boca tinta
Lambendo dedos, colher, seio

Nada me chama tanto a atenção
Quanto a sua boca entre as minhas pernas