Eu vi os meus dedos correndo
As demandas apressadas
Eu vi os olhos esvaziados
- "Eu vi o tempo
E o tempo não parou pra eu olhar para aquela barriga" -

(Que era a minha)

Se eu pudesse, morava
No tempo devagar
Do preparo
Da criação
Do intervalo

Se eu pudesse, divagava
Demorava
Neste poema

Mãe de tudo

Todas as mães são de todas

A minha mãe é sua
A sua mãe é da minha
Mãe de tudo
A mãe que você conhece
A mãe que você não gosta
Mãe é uma coisa nossa
Toda mãe
É divina mãe que erra
Mãe é chão
Mãe é poça
Mãe é Terra

(24 de Julho de 2023)


Declaração

Tem coisa que não basta decretar

Registrar, inscrever, firmar

"Pronto, a partir de hoje assim será"


Tem coisa que só se sustenta 

Se feita e refeita reiteradamente todo dia


Como amor e democracia

Pessoa

Quem sou eu para mim?
Não sou mais que uma sensação de mim

Sentir a existência é doer-me no avesso
Numa pele forjada
Na imagem de mim que reveste um ninguém que eu bem conheço

A pessoa que experimenta a sensação de existir
Sente a dor vazia
De estar somente cheia de si

Sou um corpo que se olha
E que não sabe se essa dor de existir
Está dentro ou fora


Ainda é sendo

É preciso aceitar o tempo inventado
Para saber quando

Será antes, for amanhã

Quando estou
Quando guardo
Quando será finalmente o futuro (tão esperado)
E quando deixará de ser passado

Mas também é preciso esperar
Porque ainda é cedo

Tudo conforme o não planejado

Deixei amanhã para depois
Não recomecei nada
Para sair pela entrada

Não encerrei ontem
Pelo fim, fui distraída
E entrei pela saída

Desconstruir não é destruir

Daqui, dos meus escombros, vejo o que posso:
A desconstrução não deve
Deixar destroços
Pois desconstruir não é destruir
É um desmontar sem ruir
Para transformar
Outras palavras, mesmos pedaços

Eis aqui o óbvio

O óbvio se vê sob a luz, 
Sob as pálpebras, 
Dentro dos quartos,
No ângulo do olhar,
E nos gestos imediatos.

O óbvio é visto em atos,
E, de cima ou de fora,
É óbvio para quem sente.
Menos para aquele que
Com ele está de frente.

O óbvio é persistente
Mas me escapa pela tangente (E me cala, de repente).
Não consigo dizê-lo.
Não sei por quê guardo
Se quero somente dá-lo, não tê-lo 
Tão obviamente


Duas mulheres

Amaram as mesmas coisas
Choraram no mesmo dia
Fizeram as mesmas perguntas
Para um mesmo deram a mão.
Uma já leu a outra
E sabe como ela se sente,
Ainda que reinvente
Os caminhos do seu coração.
Não pretendem ser amigas,
Mas não sustentam ser rivais,
E são profundamente leais 
A esta tácita relação.
Não se conheceram pessoalmente,
Mas praticaram o perdão.
Entre elas não há competição
Sobre quem tem mais beleza
Mais sucesso, mais magreza, 
Mais talento com o violão.
Nenhuma delas tem plenas certezas
Quando a única constância 
É de transformação.
E para que não fiquem presas
- na história delas mesmas -
Se libertam juntas,
Em silêncio e em comunhão.

O que parece?

Parece o quê?
Uma nuvem parece
Uma esperança
Parece um recomeço
Sem paredes